domingo, 14 de outubro de 2012


A COMUNHÃO DO EVANGELHO

“fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, pela vossa cooperação no evangelho” - Filipenses 1.4,5

O que vem a ser essa cooperação ou essa comunhão em meio à tanta sofisticação de conceitos nessa nossa época; em meio à tanta manifestação religiosa, a tantas opiniões adversas? Como praticamos essa comunhão? Como agimos e reagimos com vistas a essa comunhão? Será que essa comunhão realmente existe ainda hoje no meio cristão? Como fica a Igreja diante de tudo isso? Qual é o papel da Igreja? Qual é a razão de nós nos reunirmos como Igreja?

A epístola aos filipenses tem como assunto principal a gratidão e a correção, e seu tema é a alegria: “Regozijai-vos”. Mas, além de ser um povo generoso e cuidadoso em servir, também é um povo  desejoso de contribuir, de cooperar. O capítulo 1, em seus versículos de 3 a 11, fala de gratidão, de interação, amizade, alegria, cooperação, saudades, enfim, de alguns sentimentos íntimos provocados entre os crentes.

Portanto, essa epístola fala dessa comunhão provocada pelo Evangelho. Fala de coisas simples que envolvem relacionamentos, sentimentos interpessoais que muito nos ensinam. Vejamos o que podemos aprender com esse texto.

1.       A comunhão do Evangelho provoca-nos perene alegria, boas recordações, além de gratidão a Deus.

“Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora.” - Filipenses 1.3-5

Paulo expressa essa gratidão a Deus pela recordação e amizade que desfrutou com os convertidos em Filipos. Esses sentimentos lhe sobrevinham quando ele orava pelos filipenses, e provocava-lhe terna alegria. O termo “alegria” (v. 4) é o tema principal desta epístola. Não é à toa que essa palavra aparece 16 vezes nesta epístola. Essa é a epístola da alegria.

Paulo se lembra da primeira vez que havia pregado o Evangelho em Filipos, desde quando teve uma visão em Trôade e que teve que mudar de rota, passando pela Macedônia, hoje norte da Grécia, onde ficava Filipos, o primeiro lugar onde o cristianismo foi pregado na Europa desde quando algumas mulheres se reuniam para orar, inclusive Lídia, a primeira convertida à nova fé (Filipenses 4.15; Atos 16.10-40).

O elo dessa amizade jamais se quebrou desde os primeiros momentos dessa evangelização até os tempos de sua prisão, quando ele escreveu essa epístola. E tudo isso acontecia por causa da ligação deles com o Evangelho.

Ainda aqui, a palavra “cooperação” (v. 5), além de significar, de modo especial, o apoio financeiro dos filipenses (4.10-20), também tem muito a ver com o conceito de “comunhão”; “koinonia” - a “participação” de todos, dando e recebendo, conforme as necessidades, seja no âmbito material ou espiritual. Essa comunhão deve provocar ainda hoje uma comum união entre os crentes, e também trazer sólidas e novas amizades, que devem ser desfrutadas entre os seguidores desse Evangelho. Essa comunhão deve ser alimentada, e realimentada, e praticada entre os crentes em Cristo.

Se “comunhão” significa “fazer comum”, ter todas as coisas em comum na nossa comunidade, como na Igreja de Atos 2, e que esta comunhão não pode existir sem que haja um “dar” e um “receber”, no sentido de “contribuição” (Romanos 15.26; 2Coríntioos 8.4, 9.13; Hebreus 13.16), será que estamos colocando em prática esse conceito, dando sem negociar, sem pensar em nada em troca, sem acepção de pessoas? Muita vez pedimos mais do que damos, mesmo diante de Deus em nossas orações.

2.       A comunhão do Evangelho provoca-nos a certeza da boa obra de salvação por causa de Cristo.

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” - Filipenses 1.6  

Mesmo enfatizando que a perseverança dos santos depende somente do poder de Deus, que os preserva pela graça, Paulo confiava que Deus completaria a salvação dos crentes em Filipos porque todos eles juntos participaram desse privilégio de defender e compartilhar essa mensagem de salvação, essa comunhão desse mesmo Evangelho.

A Bíblia de Estudo de Genebra (2009, p. 1582) também diz que o propósito salvador de Deus está consumado no “Dia do Senhor” (v. 10; 2.16), quando Jesus retornar em glória para ressuscitar o Seu povo da morte (3.11,20,21) e receber exaltação universal (2.9-11). Assim, todas as pessoas que têm exercitado a fé salvadora em Cristo serão preservadas até aquele dia. Paulo tinha essa confiança na salvação dos filipenses que se completaria até Aquele Dia.

Paulo estava convicto de que Deus, que começou um bom trabalho com os filipenses, iria continuá-lo até o dia do julgamento. Deus não faz as coisas pela metade. Ele é fiel na Sua Palavra. E você, e eu, será que temos essa mesma convicção, essa mesma confiança de salvação? Será que estamos preparados para Aquele Dia?  Que ações temos praticado no nosso dia a dia? A que obras temo-nos reservado? Obras de salvação ou obras de perdição? (cf. 2Pedro 2.8,9).

3.       A comunhão do Evangelho provoca-nos uma união tão bem alicerçada que até nos deixa saudades, onde quer que estejamos, independentemente das nossas circunstâncias.

“Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo. Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus.”- Filipenses 1.7,8

O blog da editora Fiel traz a sinopse de duas obras que bem retratam essa situação, esse comprometimento cristão, essa comunhão. Veja: Mike McKinley em seu livro Eu sou mesmo um cristão?, ao abordar a importância da Igreja local na nossa caminhada cristã, diz que é estranho um cristão não querer se juntar a ela. “É como um marido que não deseja estar junto à sua esposa”, afirma.

Segundo McKinley, um cristão é uma pessoa que foi unida a Cristo e, consequentemente, unida ao corpo de Cristo (Romanos 12.5). Sendo assim, todo cristão já faz parte da Igreja universal ou invisível - a Igreja composta por todos os cristãos de todos os lugares e de todas as eras. Logo, para este cristão, nada é mais natural do que expressar essa união espiritual através de uma Igreja local ou visível.

Ele lembra que vivemos em meio a uma geração egoísta, onde não só restaurantes devem ser rápidos e atender todas as minhas necessidades, as Igrejas foram submetidas a este paradigma. “Se uma Igreja não me satisfaz, eu procuro outra, e assim vai - embora haja razões justificáveis para sair de uma ‘Igreja’, que não é esse o caso aqui.”

Este egoísmo, ainda segundo McKinley, além de pecaminoso, é autodestrutivo, pois Deus ordenou que a edificação individual de cada membro do corpo se dê através da interação entre os membros (Efésios 4.16). Ou seja, você dificilmente irá crescer em sua vida cristã fora de uma Igreja local. Uma pessoa que se abstém da comunhão da Igreja está expondo a si mesmo ao perigo da apostasia.

Este comprometimento também é explanado por Mark Dever, em seu livro O que é uma Igreja saudável. Comprometimento que nos provoca a reunir-nos, orar, contribuir e servir. “Unir-se a uma Igreja é um ato em que dizemos: Agora, vocês são responsáveis por mim, e sou responsável por vocês, e isso é contrário à nossa cultura; e, ainda mais, é contrário à nossa natureza pecaminosa.”

Mas o que é isso, se não for comunhão? E comunhão por causa do quê? Por causa do Evangelho! O Salmo 133 diz que é nessa comunhão que o SENHOR ordena a Sua bênção e a vida para sempre. O comprometimento dos filipenses com a defesa e a confiança do Evangelho ligava Paulo a eles e, estes, a ele, atestando um testemunho apostólico até mesmo em meio às provações (cf. v. 16; Marcos 13.9-11).

Paulo está aqui diante de Deus comprometendo-se com a causa dos crentes de Filipos por causa da terna misericórdia e do amor de Cristo por compartilharem da mesma graça, do mesmo privilégio provocado pela comunhão desse mesmo Evangelho. É impressionante a segurança de Paulo nesse comprometimento para com os filipenses, conforme relata o versículo 7: “Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo.”

Aqui, a palavra “aliás”, que significa “além disso”, “além do mais”, “ademais’, “contudo”, é um advérbio que se usa no início de uma oração para acrescentar ideia que reforça ou completa o que já foi dito anteriormente. Assim, Paulo reforça o que disse nos versos anteriores e ainda endossa a ficha limpa dos filipenses diante de Deus, já que ele mesmo protegeu e endossou a mensagem desse Evangelho diante deles nas mais diversas situações.

Você tem esse privilégio? Seu pastor, seu líder ou seu chefe é capaz de botar a mão no fogo por você? E você, tem dado provas disso diante da sua Igreja, da sua comunidade, do seu ambiente de trabalho, e principalmente diante de Deus?

Também no versículo 7, a palavra “algemas”, que significa “prisões”, contrasta com a palavra “alegria”, citada no versículo 4, já que, juntamente com as epístolas escritas aos Efésios e aos Colossenses, assim como a Filemom, a carta aos Filipenses junta-se às conhecidas “cartas da prisão”, porque foram escritas quando Paulo estava preso. Mas como pode uma pessoa estar presa, sofrer todas as agruras de uma prisão, e, ao mesmo tempo, estar alegre? Só mesmo pela comunhão desse Evangelho de Cristo!

“Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus.” - v. 8

Aqui, “saudade” significa “terno amor”. Muita vez deixamos muitas lembranças, boas ou más lembranças. Mas saudade é para poucos privilegiados. Só pode sentir ou deixar saudades quem compartilha de alguma comunhão com outrem. Neste caso, Paulo sentia saudades daqueles tempos de trabalho em comum, daquele terno amor, daquela comunhão que eles tinham pela causa do Evangelho de Cristo.

Até que ponto estamos sinceramente comprometidos com esse Evangelho a ponto de até sofrermos por causa dele, por causa da sua mensagem, por causa do próprio Cristo, que sofreu por nossa causa? A ponto de sofrermos e ao mesmo tempo estarmos alegres porque só estamos seguros  nEle que nos fortalece diante dos desafios do nosso dia a dia? Será que pensamos sinceramente nisso?

Será que estamos prontos para sermos provados por causa desse Evangelho? Por causa da nossa fé? Até que ponto? Quantos mártires já morreram por causa desse Evangelho, por causa da sua fé! Até que ponto você seria capaz disso? Muitas vezes nosso cristianismo é só da boca para fora. Um cristianismo de fachada. Não há sinceridade, muito menos a prática ou o testemunho dele em nós.

4.       Diante de tudo isso, Paulo nos alerta que devemos perseverar nas nossas orações, pois a comunhão do Evangelho também nos provoca a esperança de dias melhores.

“E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.”- Filipenses 1.9-11

Se no versículo 4 Paulo diz que, sempre com alegria, orava pelos filipenses, aqui, ele transmite o motivo dessas orações: O aumento gradativo de conhecimento, percepção e discernimento que culminam num comportamento sincero e inculpável  até o dia do julgamento de Cristo (cf. Colossenses 1.9-11). E tudo isso provocado pelo amor cristão, que Paulo deseja que também aumente mais e mais entre os filipenses, e que eles sejam cheios do fruto de justiça que vem de Cristo por meio do Espírito Santo, para a glória e louvor de Deus Pai.

Essa é a oração de Paulo aos filipenses. E esses também são os meus desejos para você que faz parte dessa Igreja de Cristo visível e invisível em nossos dias. Amém?


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Referências

- Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, notas. p. 1581-1582


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

NECESSIDADE DE SABEDORIA




“Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus” - Tiago 1.5a

Viver é topar com desafios todos os dias. Mas será que estamos preparados para enfrentar essa colisão, suas sequelas, e sairmos ilesos, sem nenhum arranhão? Se essa pedra de tropeço existe no meio do nosso caminho, a quem recorrermos para conseguirmos esmagá-la? Que ferramentas usaremos para isso, e como as utilizaremos?

E agora, José? – como diz o poeta.

Se não estamos livres dessas aflições, para podermos lidar com elas, uma dessas ferramentas que temos que utilizar é a sabedoria. Mas se, em geral, sabedoria significa conhecer o melhor fim e os melhores meios de atingir esse fim [1], dentro dos princípios cristãos, de onde poderá vir essa sabedoria? Como podemos obtê-la ou como devemos pedir essa sabedoria, já que ela envolve a visão das coisas sob a perspectiva de Deus?

Vejamos alguns pontos que podemos depreender da epístola de Tiago 1.5-8 que podem muito bem ajudar-nos diante dos desafios, provações ou aflições em nosso dia a dia.

1.       Se necessitamos de sabedoria, devemos pedir a Deus, e os seus resultados só vêm com a prática de uma vida cristã.    

“Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida.”, diz Tiago 1.5.

A epístola de Tiago trata dessa prática de vida cristã. Ou melhor, Tiago destaca a vida cristã prática. Isso é notável pelos seus ensinamentos morais e éticos de relevância para a Igreja.

Tiago trabalha com temas do nosso dia a dia, como as provações e a fé, a obediência e a religião prática, a realidade da fé, o controle da língua, além de sérias advertências contra o mundanismo, advertência aos ricos e de exortações à vinda do Senhor. Lidar em meio a tudo isso requer de nós sabedoria.

Tiago escreveu para a Igreja, não para uma Igreja específica, mas para os cristãos em geral. Seus escritos valem para todos nós ainda hoje.

O texto do capítulo 1, versos 5 a 8 é uma sequência inserida no contexto de provações e fé, que se inicia nos versos 2 a 4. O conjunto do contexto desses versículos de 2 a 8 é como se fosse um lide – ou seja, um resumo de tudo o que o autor irá desenvolver daí para frente.

Vejamos os versos 2-4:

“Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.”

Provações são motivos de alegria, não de tristeza. Paradoxo? Não para os verdadeiros cristãos, que entendem muito bem essa linguagem. Deus não nos prova à toa, por nada, ou para destruir-nos. Ao contrário, para tudo existe um propósito nos planos de Deus que quer nos ver com uma vida espiritual saudável, tendo em vista o nosso constante aperfeiçoamento, e prontos para estarmos sempre ao lado dEle, agora, e eternamente.

As tentações ou provações servem como um teste de fortalecimento da nossa fé. Se passarmos neste teste, isso produz em nós a perseverança para que sejamos perfeitos e íntegros. Entretanto, sabemos que isso não é nada fácil. Diante das provações deste mundo, muitas vezes, é difícil sairmos ilesos. Muitas vezes nossas próprias forças não dão conta. Essas provações nos deixam perplexos, indecisos, impotentes. Diante desta situação, precisamos desta sabedoria para lidar com tantos desafios.

Como é certo que as provações existem, para podermos suportá-las, devemos pedir sabedoria somente a Deus, porque Deus é a fonte de toda sabedoria, não os homens. Somente da parte de Deus, o SENHOR dos Exércitos, é que vem o nosso socorro, já que a sabedoria dos homens não reconhece a sabedoria de Deus, porque atua dependendo das nossas mesquinharias e ocasiões, parcialmente, e no âmbito das nossas limitações ou finitude.

Será que as guerras, e tantas outras desavenças, a fome mundial, a devastação do meio ambiente, os assassinatos, a corrupção – dentre tantos outros desequilíbrios –, são exemplos de sabedoria? Onde estão os sábios deste mundo? (cf. 1Coríntios 1.20,21).

O verso 5b diz: “e ser-lhe-á concedida”. Isso significa que a promessa de concessão dessa sabedoria divina é uma certeza para quem pede, confia em Deus e cumpre a Sua vontade.

Daí a Palavra de Deus, em Provérbios 2.1-22, destacar os resultados para quem aceita a sabedoria: o conhecimento de Deus e as bênçãos da vida. “Então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus” (v. 5; cf. v. 9 e 21). A Bíblia de Estudo de Genebra (1999, p. 728) também diz  que esses dois aspectos da sabedoria são vistos claramente: o dom divino e a tarefa humana. [2]

Os versículos 3 a 6 do capítulo 2 de Provérbios confirmam isso:

“E, se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus. Porque o SENHOR dá a sabedoria, e da sua boca vem a Inteligência e o entendimento.”

De boa vontade Deus dá sabedoria a todos nós. Essa sabedoria nos é concedida sem censura, e livremente, sem nenhuma acepção, porque Deus é infinitamente sábio, e, nós, totalmente dependentes dEle, para que não gloriemos na nossa sabedoria, posto que conhecer a Deus constitui a glória do homem (Jeremias 9.23,24).

Todos conhecemos a história do rei Salomão. Até os incrédulos. Em 1Reis 3.7-14 está escrito que Salomão, um jovem rei que assumiu o posto depois da morte de seu pai Davi, estava diante de um grande desafio, que era governar o povo de Deus – uma grande nação que nem se podia contar. Salomão pediu a Deus um coração compreensivo para poder julgar esse povo, para prudentemente discernir entre o bem e o mal (v. 8,9).

Deus agradou-Se de Salomão porque ele não pediu nem riquezas nem vida longa nem a morte de seus inimigos, mas, sim, entendimento para discernir o que é justo. Veja aí o conceito de sabedoria. Assim, o SENHOR deu a Salomão um coração sábio e inteligente, e até o que ele não pediu, tanto riquezas como glória.

Porém, o SENHOR fez uma ressalva a Salomão:

“Se andares nos meus caminhos e guardares os meus estatutos e os meus mandamentos, como andou Davi, teu pai, prolongarei os teus dias” (v. 14).

Como é que nos portamos diante das nossas dificuldades, tribulações ou provações? Queremos resolver tudo do nosso jeito ou paramos um pouco e respiramos, primeiramente, colocando tudo diante de Deus?

Como é que nos portamos diante da nossa família, do nosso cônjuge e nossos filhos, no nosso ambiente de trabalho ou mesmo na Igreja? Será que pedimos a Deus sabedoria para resolver as situações difíceis ou agimos por conta própria? Será que sabemos pedir ou não recebemos porque não sabemos pedir?

Salomão soube pedir, e nós sabemos os resultados desse seu pedido. Como é que estamos pedindo a Deus? Como é que estamos orando, como aquele fariseu ou como o publicano citados em Lucas 18.9-14?

São muitos os exemplos bíblicos que tratam da sabedoria. Podemos aprender muito com todos eles. Já falamos de Salomão. E de Jesus Cristo? Quem já ouviu falar dEle? Você já ouviu falar ou já teve uma experiência pessoal com Ele? Que ninguém se constranja, mas pense nisso.

Outro exemplo é o de Tiago, que pode muito bem ser o nosso. Tiago era irmão de Jesus, mas só reconheceu a Cristo como seu Salvador depois da ressurreição. Daí para frente Tiago tornou-se um dos pilares da Igreja, juntamente com Pedro e João. [3]  Tiago assumiu posição de autoridade como líder da Igreja, além de presidir o concílio de Jerusalém (Atos 15). Homem de coragem, e piedoso, de singular devoção à oração, foi martirizado em 62 d.C. Bateram nele com uma clava até a morte depois de ter sido atirado do parapeito do templo.

 Tantos outros tiveram tão belos exemplos de vida porque optaram pela sabedoria lá do alto com vistas à defesa da sua fé, mesmo em meio a tantas aflições. Jesus foi tentado por Satanás logo no início de Seu ministério terrestre. Foi perseguido pelos fariseus até a morte na cruz. Mas agiu sempre com humildade, que é uma das características da sabedoria.

Assegurando-nos de que no mundo teremos aflição, mas que Ele mesmo venceu o mundo, Jesus foi humilhado a ponto de tornar-Se homem, habitar entre nós, e morrer por nós, pela nossa salvação, para, depois, ressuscitar, seguindo os propósitos de Seu Pai. Jesus é fruto da sabedoria de Deus.

Será que temos fé para acreditar em tudo isso? Para seguir tais exemplos? Para suportar provações semelhantes? Você crê que Jesus é seu único e suficiente salvador, e que toda sabedoria vem somente de Deus por meio desse mesmo Jesus? Pense nisso mais uma vez.

2.       Se necessitamos de sabedoria, devemos pedir com fé, em nada duvidando – diz Tiago 1.6a.

Se Deus é a fonte de toda sabedoria, e se sempre necessitamos de sabedoria para vencermos as aflições deste mundo conturbado e enganador, e se devemos pedir essa sabedoria a Deus diante de tantos desafios, isso deve ser feito com fé, sem duvidar. Devemos pedir com toda sinceridade. De coração aberto, além de uma vida piedosa, um espírito manso e humilde, pois se a arrogância e a insensatez andam juntos, assim também acontece com a humildade e a sabedoria.

Se não agirmos com fé, mesmo em qualquer área de nossa vida, até secularmente, nada conseguiremos. Se pedirmos com fé, Deus nos concederá não apenas sabedoria, mas até mesmo outras coisas.

Como vem agindo essa fé em nós? Como temos dado razão dela diante dos outros? Diante dos incrédulos? Diante das nossas provações, desafios ou aflições? A fé também é dom de Deus. Temos pedido essa fé a Deus? Quais as obras dessa nossa fé? A sabedoria também é um produto da nossa fé. Se fé sem obras não vale nada, aqui, a sabedoria é uma das obras da nossa fé, lembrando que, sem fé, é impossível agradar a Deus.

3.       Se necessitamos de sabedoria, devemos pedir sem vacilar, sem desviar o foco, com perseverança.

Essa perseverança deve ter uma ação completa, para que sejamos perfeitos e íntegros, em nada deficientes diante da provação e confirmação da nossa fé (v. 3,4). Diferentemente de quem tem sua mente dividida, e é instável em tudo o que faz. Este não receberá coisa alguma do Senhor, pois é semelhante às ondas que são levadas e agitadas pelo vento. Fazem muito barulho, e espatifam-se  nas pedras e ribanceiras a beira-mar.

“pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos.” (Tiago 6b-8)


Será que estamos levando a sério as nossas orações? Ou será que somos como essas ondas do mar, que fazem muito barulho por nada? Até que ponto vai a nossa hipocrisia diante de Deus, ou a nossa humildade e sinceridade?

A sabedoria somente é obtida por uma completa dependência de Deus, como já foi dito. Toda sabedoria vem do alto. As obras dos homens mostram que não somos tão sábios e inteligentes assim. Todos necessitamos da sabedoria de Deus.

Tiago 3.13-18 faz um desafio a todos nós. O autor pergunta quem dentre os homens é sábio e inteligente a ponto de demonstrar por seu bom procedimento as suas obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria.

Prosseguindo, Tiago mostra-nos dois tipos diferentes de sabedoria.

A sabedoria dos homens:

“Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins.” (v. 14-16)

A sabedoria de Deus:

“A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.” (v. 17,18)

A sabedoria de Deus gera paz, e a paz gera paz, obviamente. Não gera confusão nem outras coisas ruins.

O Salmo 111.10 diz que o temor do SENHOR é o princípio da sabedoria. A excelência da sabedoria é fazer a vontade de Deus. Para isso não devemos vacilar nem envolver-nos em incredulidades, em nossos próprios métodos ou depender de outrem, a não ser de Deus.

Provações, fé, perseverança e sabedoria são a chave para o nosso crescimento espiritual. São conceitos que atuam em conjunto, e exigem uma atitude de nossa parte. Como temos agido em nosso dia a dia diante de tantos desafios?

Todo esse contexto aqui tratado envolve momentos de oração. Mas de oração sincera, não de um tipo de jogo com Deus. Se realmente quisermos obter respostas às nossas orações, uma das condições é termos ânimo singelo, e confiar em Deus apenas, sem desviar do objetivo. Sendo constantes, e perseverantes, mesmo diante das nossas aflições. E não agirmos como as ondas do mar que são impelidas e agitadas por quaisquer ventos, e morrem na praia.

Não adianta reinventarmos a roda. Em meio às nossas provações e desafios a sabedoria tem função muito importante, não somente para nossa vida diária, mas até para o nosso relacionamento interpessoal. Experimente, faça como Salomão, peça sabedoria a Deus, mas peça com fé e perseverança, sem titubear; e mire-se em Cristo, a essência da sabedoria.

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Notas e Referências

[1] McNab, Andrew. A Epístola Geral de Tiago. In: O Novo Comentário da Bíblia. v. II. São Paulo: Vida Nova, 1990. Reimpressão. p. 1389

[2] Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. p. 728, 1485-1486

[3] João 7.5; Mateus 13.55; 1Coríntios 15.7; Gálatas 1.19; 2.9

quinta-feira, 31 de maio de 2012

UM DESAFIO DE FÉ

     “Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei” - Gênesis 12.1 

     Os homens e seus heróis... Devemos ter heróis? Qual é o seu? A Bíblia também tem seus heróis. Como instrumentos de Deus, os heróis da Bíblia tiveram que enfrentar desafios que pareciam impossíveis aos olhos humanos, mas venceram por causa do nome de Deus. Por causa do poder e dos desígnios de Deus. Muitos desses heróis só seguiram em frente por causa do plano de redenção que Deus havia anunciado e, pela fé, esses heróis enfrentaram obstáculos para fazer a vontade de Deus. Muitos destes heróis estão desfilados na galeria da fé, em Hebreus 11.

      Em meio a essa galeria desponta Abraão que esse mesmo Deus, em Sua soberana e divina graça, prometeu-lhe que lhe mostraria a terra para onde deveria ir, depois de abandonar a sua terra-natal e toda a sua parentela. A ordem era que Abraão teria que ir. Abraão tinha que sair da sua terra. Mas para onde ir? Onde ficava exatamente esse lugar que Deus disse que lhe mostraria? Esse é um dos maiores desafios de fé que um homem pode enfrentar.

     Mas o que nós temos a ver com isso? O que devemos aprender com isso? Qual é a nossa missão, o nosso desafio em meio a tudo isso? O que devemos aprender com Abraão, com seu desafio, seu exemplo, sua missão e ministério?

     Antes de qualquer coisa, rápida e sucintamente, visualizemos o contexto, objetivo e conjuntura de um livro tão vasto, mas tão simples na sua explanação, e tão essencial para nossa compreensão da origem das coisas, segundo o olhar do próprio Criador. Primeiramente, a partir do capítulo 12, as narrativas do livro de Gênesis tomam outro rumo. Aqui começa a saga missionária de Abraão e seus descendentes. Aqui começa a história dos patriarcas.

      O livro de Gênesis pode ser dividido em duas seções principais. Se nos capítulos de 1.1 a 11.9, o tema principal são os eventos da criação, da queda, do dilúvio e da torre de Babel, e abrangem toda a raça humana num período de dois mil anos, os contextos de 11.10 a 50.26 têm como tema central as pessoas, e tratam de Abraão, Isaque, Jacó e José. Ou seja, toda a família de Abraão por um período de 250 anos. Portanto, a maior parte de Gênesis narra a história de Abraão, Isaque, Jacó e seus filhos.

     Sabemos que a palavra “gênesis” significa “origem”, “princípio”, e, ao longo dos seus 50 capítulos e 1.533 versículos, o livro de Gênesis trata da origem das coisas. A tradição diz que sua autoria é de Moisés, e, resumidamente, traz como tema a obra de Deus na criação e na origem da salvação.

     Nessa conjuntura de salvação, de origem, e de redenção de um povo escolhido por Deus, é que Abraão tem sua importância, segundo os planos de Deus. Assim, a passagem de 11.24 a 25.11 descreve a história de um homem que tem seu nome exaltado como servo de Deus em três das mais importantes religiões monoteístas do mundo de hoje: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, além de ser citado na Bíblia como “o pai da fé”, fazendo jus ao significado de seu nome: “o pai ou líder de muitas nações” (Gênesis 17.5).

     Na passagem de 12.1-9, os versículos de 1 a 3 serão, daqui para frente, uma espécie de marca que acompanhará toda família gerada até agora. Assim como o livro de Gênesis é o alicerce do Pentateuco, ou da Torá, esses três primeiros versos do capítulo 12 são a base do chamado e das promessas de Deus para com Abraão, e do plano de salvação da humanidade.

      As palavras-chave como “grande nação”, “engrandecerei”, “bênção”, “abençoarei”, “amaldiçoarei” e “benditas” contidas nestes versos são promessas dirigidas a Abraão e, através dele, a todo o povo de Israel e, consequentemente, a todos nós.

      A estrutura desse contexto traz uma linguagem que é bem familiar no diálogo entre Deus e Abraão. Era a maneira de como Deus Se comunicava com Abraão. Nesse caso, Deus dava uma ordem, e fazia promessas, e Abraão obedecia, por meio de sua fé, e Deus, assim, confirmava as Suas promessas que Abraão respondia com ações de graça.

      Esta passagem do capítulo 12 e seus versículos de 1 a 9 narra o primeiro desafio de Abraão, dentre tantos outros que viriam pela frente, mas que ele sempre vencia por causa da sua fé e obediência à ordem de Deus. E nós temos muito a ver com isso. Nós devemos aprender muito com isso.

 1. Ordem e promessas de Deus - Gênesis 12.1-3

      “Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.” 


     Alguns versículos se destacam neste texto:

 a) “Sai da tua terra... vai para a terra que te mostrarei” - v. 1.

    Deus ordena que Abraão abandone sua vida de idólatra em que se envolvia toda sua família. Seu pai, Tera, prestava culto a ídolos, e o deus-lua, Naná, era adorado em Ur, sua terra-natal. No livro de Atos 7.2,3 diz que esta ordem foi dada a Abraão ainda quando ele estava com sua família na Mesopotâmia, que fica na região hoje conhecida como Oriente Médio, mais especificamente, na região do Iraque.

     Deus, em Sua soberana e divina graça, prometeu a Abraão que lhe mostraria a terra para onde ele deveria ir. A ordem era que Abraão teria que ir. Mas para onde? Que terra era essa? Onde ficava esse lugar que Deus disse que lhe mostraria? Onde e como era esse lugar que Abraão nem sequer conhecia? Em Hebreus 11.8 descreve-se que, pela fé, Abraão obedeceu sem saber para onde ia.

      Deus assumiu responsabilidades para com Abraão, nos versos 2 e 3, enquanto lhe atribuiu tarefas, no verso 1. O propósito de Deus era redimir e salvar a raça humana. E que houvesse um homem que verdadeiramente O conhecesse, que O servisse e guardasse os Seus caminhos (Gênesis 18.18,19). A intenção de Deus era que da família desse homem surgisse uma nação escolhida, uma família de pessoas que se separassem das práticas ímpias das outras nações e fizessem a vontade de Deus. [1]

 b) “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome” - v. 2a

     Deus prometeu a Abraão uma terra, uma grande nação através dos seus descendentes e uma bênção que alcançaria todas as nações da terra. Dessa nação é que viria Jesus Cristo, o Salvador do mundo, o prometido descendente da mulher anunciado em Gênesis 3.15, com a queda do homem [2], cujas consequências recaem sobre todos nós ainda hoje. Deus queria constituir um povo Seu de onde sairia Aquele que seria a Sua grande e principal promessa, a redenção há muito anunciada.

     Se Adão e Eva foram expulsos do jardim do Éden (Gênesis 3.23), a Abraão foi-lhe prometida uma terra que manam leite e mel. Se Adão e Eva quiseram tomar suas decisões fora dos planos de Deus, desobedecendo-O, Abraão foi aquele que creu e obedeceu, e teve Deus como seu guia.

     Se foi negado o que os construtores de Babel almejaram fazer com suas próprias forças, e, estes, por causa do seu orgulho e prepotência, numa tentativa de autoafirmação, desafiaram abertamente a Deus - e foram punidos por Deus, em Gênesis 11.1-9 -, este mesmo Deus concedeu a Abraão, na Sua graça soberana, a unificação de um povo para servi-lO e adorá-lO.

 c) “Sê tu uma bênção!” - v. 2b

     Em Gálatas 3.8, Paulo diz que, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o Evangelho a Abraão, sendo nele abençoados todos os povos.

     Assim, a chamada de Abraão envolvia, não somente uma pátria terrestre, mas também uma pátria celestial. Um lar definitivo não mais na terra, mas no céu. Uma cidade cujo artífice e construtor é o próprio Deus, onde habitaremos eternamente com Ele em justiça, alegria e paz (Hebreus 11.9,10,14-16; Apocalipse 21.1-4; 22.1-5). Mas, até então, Abraão seria estrangeiro e peregrino na terra (Hebreus 11.9,13). [3]

 2. Fé e obediência - Gênesis 12.4-6

     “Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o SENHOR, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Levou Abrão consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã. Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram. Atravessou Abrão a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra.” 

      Convém notar que os versos 4 a 6 do capítulo 12 citados acima, e sua sequência de 7 a 9, são uma continuação de Gênesis 11.28-32 que 12.1-3 abre um parêntese para inserir a ordem e as promessas do SENHOR a Abraão, até então, Abrão, e que nos faz refletir que somente quem tem fé é que pode obedecer, e seguir ao chamado. Somente quem tem fé é que pode vencer qualquer obstáculo, e seguir em frente. Deus tem um chamado para cada um de nós; para você, e também para mim.

     Como anda a nossa fé nesse mundo de incrédulos? O texto diz que Abrão tinha 75 anos quando saiu de Harã. Para os dias de hoje, essa é uma idade em que já estamos fora de qualquer atividade, fora de mercado, e até discriminados por sermos idosos ou encostados em uma cadeira de balanço, abandonados em qualquer lugar por aí, ou mesmo num asilo qualquer, se ainda estivermos vivos.

     No entanto, Abraão estava apenas começando sua vida missionária. O chamado de Abraão levou-o a separar-se da sua pátria, do seu povo e dos seus familiares, assim como das suas antigas crenças (Gênesis 12.1), para tornar-se estrangeiro e peregrino na terra (Hebreu 11.13). Uma saga de fazer história! E você? Como anda sua história diante de Deus? Como você está se portando diante desse mundo cheio de fantasias e mentiras?

     Por fé e obediência, Abraão deixou tudo, inclusive uma região próspera, e rica, para viver em tendas no deserto, servindo somente a Deus. Em Abraão, Deus está ensinando-nos que os Seus eleitos, aqueles a quem Ele chama e Lhe obedecem, devem separar-se de tudo quanto possa impedir o propósito divino na vida deles. [4] Todos somos estrangeiros e peregrinos nesse mundo. Nossa pátria está no céu. Aqui nada temos, a não ser o viver pela graça.

     Porém, o chamado de Abraão não continha apenas promessas. Tinha também compromissos. Deus é soberano sobre nossas vidas, mas Ele também nos dá responsabilidades. Nós temos que fazer a nossa parte para podermos ser dignos das Suas promessas. Quantos cananeus vamos ter que derrubar a cada dia? Qual é o tamanho das nossas atitudes diante das nossas dificuldades?

    Deus requeria de Abraão tanto a obediência quanto a dedicação pessoal a Ele como Senhor para que recebesse aquilo que lhe fora prometido. Nossa obediência e dedicação demandam confiança na Palavra de Deus, mesmo quando o cumprimento das promessas parece-nos humanamente impossível (Gênesis 15.1-6; 18.10-14).

     A obediência à ordem de Deus requer de nós o abandono de nossa terra, que é a nossa zona de conforto, as nossas mesmices cotidianas (Gênesis 12.4; Hebreus 11.8), num esforço sincero para vivermos uma vida de retidão [6] perante Deus, e sermos dignos da Sua presença em nossas vidas (Gênesis 17.1,2).

3. Confirmação das promessas e gratidão - Gênesis 12.7-9

     “Apareceu o SENHOR a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao SENHOR, que lhe aparecera. Passando dali para o monte ao oriente de Betel, armou a sua tenda, ficando Betel ao ocidente e Ai ao oriente; ali edificou um altar ao SENHOR, e invocou o nome do SENHOR.Depois, seguiu Abrão dali, indo sempre para o Neguebe.” 

     Devemos ser gratos a Deus pela Sua fidelidade e cumprimento da Sua Palavra. Atos 7.5 e Gálatas 3.16,18 ensinam-nos que a última parte dessa promessa cumpre-se hoje na proclamação missionária do Evangelho de Cristo. A promessa de Deus a Abraão e a Sua bênção sobre ele estendem-se, não somente aos seus descendentes físicos - os judeus crentes -, mas também a todos aqueles que, com fé genuína (Gênesis 12.3), aceitarem e seguirem a Jesus Cristo - a verdadeira posteridade de Abraão (Gálatas 3.14,16). [7]

     Paulo diz, em Gálatas 3.7, 9, 14 e 29, que todos os que são da fé, como Abraão, são filhos de Abraão e são abençoados juntamente com ele. Tornam-se posteridade de Abraão, herdeiros segundo a promessa, o que inclui receber pela fé a promessa do Espírito em Cristo Jesus. Pois, se somos de Cristo, também somos descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.

     Pois bem, como já foi dito, quem tem fé, obedece, e segue em frente. Mas é Deus quem dá o dom da fé a quem bem Lhe aprouver. Em Hebreus 3.8 está escrito que, pela fé, Abraão, quando foi chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia.

     Abraão não pôs sua fé naquilo que iria receber, mas, sim, nAquele que lhe fez as promessas; nAquele que lhe impingiu o dom da fé; nAquele que tem poder para tudo isso, e muito mais. Abraão deixou tudo para trás e seguiu em frente na sua jornada missionária. Ele tinha uma missão pela frente que devia ser cumprida. Era esse o chamado de Abraão cuja jornada estava apenas começando. Abraão não se amofinou; topou o desafio, porque creu.

     Assim ele seguia, e a cada passo, a cada missão cumprida, ele erigia um altar em adoração e agradecimento a Deus pela vitória alcançada. Não que ele não tivesse dificuldades, dúvidas, crises. Mas quando isso acontecia Deus estava sempre ao lado dele, incentivando-o, porque Abraão tinha fé, e, por isso,  obedecia; e prosseguia.

     Assim como Abraão, todos nós também somos chamados, mesmo diante de nossas crises e dúvidas em meio a um mundo tão adverso. Mas basta termos fé; basta obedecermos ao nosso chamado, que serviremos a Deus do jeito que somos, e como estamos. Como cristãos, somos o Israel de hoje, a casa espiritual edificada em Cristo. Somos chamados para proclamarmos as virtudes dAquele que nos tirou das trevas para Sua maravilhosa luz (1Pedro 2.9).

     Você crê nisso? Mas, mesmo não crendo, tente, desafie-se. Faça um teste com você mesmo, e saia da sua terra; desapegue-se das suas mesmices, das suas angústias ou crendices, choradeiras ou idolatrias deste século. Atente-se ao seu chamado e cumpra a sua missão como um cidadão digno do Reino de Deus. Encare esse desafio, obedeça ao seu chamado, obedeça à vontade de Deus, e seja você também uma bênção!



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 Notas e Referências 

[1] Estudos doutrinários - A chamada de Abraão. Disponível em: www.midiagospel.com.br Acesso em: 15/05/12

[2] Ibd.

 [3] Ibd.

[4] Ibd.

[5] Ibd.

[6] Ibd.

[7] Ibd.

- A Chamada de Abraão. In: John Stevenson Bible Study. Disponível em: www.johnstevenson.net Acesso em: 07/03/2012

 - _______________. In: Champlin, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo: v. 1. Gênesis. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 99-102

 - All-Com Allen, Clifton J. (ed. ger.). Comentário Bíblico Broadman: Velho Testamento. Gênesis-Êxodo. v. 1. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987

 - Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999

 - Ellisen, Stanley A. Gênesis. In: Conheça Melhor o Antigo Testamento: Um Guia com Esboços e Gráficos Explicativos dos Primeiros 39 Livros da Bíblia. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 20-31

 - Kevan, E. F. A Chamada de Abraão. In: O Novo Comentário da Bíblia. v. 1. editor: Prof. F. Davidson. São Paulo: Vida Mova, 1963, 1990. Reimpressão. p. 95-96

- Livingston, George Herbert. Abraão, o Homem que Deus Escolheu. In: Comentário Bíblico Beacon - O Livro de Gênesis. 1ª ed. v. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p. 57-58

 - Mesquita, Antônio Neves de. Estudo no Livro de Gênesis. 4ª ed. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1979

 - O Argumento de Gênesis. In: Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento: Estruturas e Mensagens dos Livros do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 21-58

 - O chamado de Abrão. Disponível em: www.religiaoweb.com.br Acesso em: 15/05/12 - Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. 

- Study By Bob Deffinbaugh. O Chamado de Abrão (Gênesis 11:31-19:9) Disponível em: http://bible.org Acesso em: 15/05/12

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MODELO DE HOMEM PARA DEUS

“E eu vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele” – Lucas 7.28

A Palavra de Deus é viva e eficaz. Ela se renova a cada dia por meio do Espírito desse mesmo Deus que nos fala no momento de cada uma das nossas necessidades, alertando-nos diante de cada uma de nossa situação, independentemente de cada uma das nossas circunstâncias. Assim, a Palavra de Deus também nos renova a cada dia.

É o caso de Lucas 7.24-35. Diante da beleza e nitidez desse texto, sua contextualização pode muito bem ser aplicada em nossos dias, sendo possível ainda distinguir cada personagem, cada fato, numa ação que se desenrola quadro a quadro, ou melhor, versículo a versículo, didática e detalhadamente.

Não é à toa que Lucas destaca Jesus como o Filho do Homem, o homem perfeito como Filho de Deus encarnado, enfatizando-O como Mestre, neste caso, um mestre que traça o perfil de uma geração com vistas ao modelo de homem que Deus requer ainda em nossos dias para cada um de nós.

No afã desses nossos dias, e diante das tantas competições, das críticas e das nossas opções, queremos ser modelo em tudo. Queremos ser brilhantes em tudo – não qualquer coisa insignificante. Tudo bem, mas o que nos torna grandes diante de Deus e diante dos homens? Qual é a nossa posição, o nosso compromisso diante de Deus e diante dos homens? Qual é a nossa postura, o nosso exemplo, quando tivermos que tomar posição como cidadão no Reino de Deus? Qual é o modelo de homem que Deus requer para cada um de nós?

De acordo com o texto, assim que os mensageiros de João voltaram à prisão da fortaleza de Macaeros, onde João estava preso, e que, segundo Josefo, ficava na costa oriental do mar Morto, Jesus aproveita a oportunidade para falar a respeito da pessoa e do ministério de João.

Convém lembrar que, enquanto o ministério público de Jesus estava no auge, com Ele operando os Seus milagres e todas as Suas maravilhas, além da pregação da Palavra, obviamente, o ministério de João estava em declínio; chegava ao fim. Na prisão, João tinha dúvidas se Jesus era mesmo aquele que estava para vir ou deveria esperar outro (Lucas 7.17-20).

Assim, depois que João envia seus mensageiros até Jesus para que sejam dirimidas as suas dúvidas, e Jesus responde com Seus próprios milagres – além de passar-lhe uma leve reprimenda (Lucas 7.21-23) –, o próprio Jesus dá testemunho de João como um modelo de homem “entre os nascidos de mulher” – designação esta que é um hebraísmo encontrado no Antigo Testamento que se refere àquele “que é da raça humana” (Jó 14.1; 15.14).

Jesus faz isso por meio de uma série de perguntas retóricas. Tais perguntas são tão bem formuladas que, por si sós, já estão embutidas nelas suas próprias respostas, além de o próprio Jesus incluir Seus próprios comentários, ou conclusões, e até mesmo Suas aplicações.

“Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que saístes a ver? Um homem vestido de roupas finas? Os que se vestem bem e vivem no luxo assistem nos palácios dos reis. Sim, que saístes a ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é aquele de quem está escrito: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti.” – Lucas 7.24b-27

Aqui, “caniço” (verso 24) significa uma “cana”, uma “vara de pescar”, e, segundo o contexto, esse “caniço” sobrevive de acordo com os ventos. Ele pende para o lado que os ventos sopram, não tem destino próprio, diferentemente de João que tinha um ministério há muito tempo bem definido. “Roupas finas”, “luxo”, “palácios dos reis” (verso 25) – essas palavras podem dar uma ideia do poder humano com suas pompas, burocracias, e leis próprias, conforme os padrões humanos com suas tradições, ou mesmo falcatruas, como os crimes do colarinho branco, diferentemente de João que se vestia de pele de camelo, e vivia no deserto, pregando o arrependimento.

Mas, se no verso 26 Jesus responde que João é um profeta, “e muito mais que profeta”, no verso 27 Jesus cita o Antigo Testamento para testificar o que diz. Jesus cita o profeta Malaquias (Ml 3.1a), mas esta profecia já tinha sido ratificada pelo profeta Isaías, mais de 700 anos a.C. (Is 40.3).

Malaquias é datado aos tempos de Esdras e Neemias, há mais de 450 a.C. Viveu após o retorno do exílio babilônico e da reconstrução do templo e pregou a um povo desiludido, desanimado e cheio de dúvidas que havia perdido as esperanças das promessas gloriosas encontradas nos profetas anteriores.

Esse povo passava por uma vida difícil. Experimentava a miséria, a seca e a adversidade econômica. Com isso, desiludiu-se de Deus e de sua própria fé. Eram tempos de dúvidas e decepção, e os que professavam o Senhor são tentados a abandonar a fé no Deus da aliança (Bíblia de Estudo de Genebra, 1999, notas. p. 1087).

Então, com seu estilo contestador, e bem característico, o profeta Malaquias prioriza em seu ministério o tema da aliança. Como um advogado da parte de Deus no processo dessa aliança, ele tem como empreitada acender a chama da fé em um povo de coração insensível, falando do amor eletivo de Deus, e do grande dia do Senhor, ao tentar estabelecer a continuidade das obrigações desta aliança entre aqueles que verdadeiramente temem a Deus (Ml 3.16-18) (Idem).

Assim, Malaquias fala sobre a vinda do Senhor – terrível dia para uns, para quem não acredita e transgride essa aliança; e alegria para outros, os verdadeiros crentes. Essa vinda do Senhor seria precedida por um mensageiro. João foi esse mensageiro.

Esta profecia também é confirmada pelos quatro Evangelhos. Já no próprio nascimento de João, seu pai Zacarias, profetiza que João será chamado profeta do Altíssimo, que ele será o precursor do Senhor, preparando-Lhe os caminhos, pregando o arrependimento e enfatizando a salvação divina (Lc 1.76).

“Preparar”, aqui, significa “retirar os obstáculos”. Deus removerá todos os obstáculos por ocasião da vinda de Cristo, mas Ele espera que Seu povo se prepare para o Reino e requer uma atitude de nossa parte com vistas ao progresso de nossa salvação (Bíblia de Estudo de Genebra, 1999, notas, p. 831).

Cá entre nós, quais são os nossos obstáculos ou desculpas que nos impedem de seguir a Cristo? O que está impedindo-nos para que Cristo entre em nosso coração? Será que estamos cooperando ou estamos atrapalhando o progresso da nossa salvação?

Será que estamos sendo verdadeiramente atraídos por Cristo? Cremos realmente que Ele é o único que tem poder para nos salvar? Ou estamos sendo atraídos pelas coisas deste mundo, suas fantasias, suas riquezas, seus poderes, idolatrias, e outras ilusões passageiras?

Depois de Malaquias, durante cerca de 400 anos, todos os profetas silenciaram. Suas poderosas palavras nunca mais foram ouvidas. É chamado o tempo do silêncio de Deus para com o Seu povo. O tempo em que os escribas e os sacerdotes foram os principais personagens religiosos daquela época. O tempo da chamada religião legalista.

Mas Malaquias predisse um reavivamento geral antes da vinda do Senhor. Isso se cumpriu no ministério de João, que foi um autêntico profeta que preparou o caminho para a missão de Jesus Cristo (Adamson, In: O Novo Comentário da Bíblia. v. 2, 1990, p. 936).

João foi fruto de uma profecia há muito anunciada, ou seja, um profeta que foi profetizado por outros profetas; um homem especial. João foi um homem encomendado por Deus para uma missão especial. “E eu vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João” (Lucas 7.28a), confirma o próprio Senhor Jesus.

Mas por que Jesus diz todas essas coisas sobre João? Por que todas aquelas perguntas tão bem direcionadas? Por que todos esses elogios sobre a grandeza de João? Jesus quer destacar algum ponto?

1. Nossa íntima relação com Deus – O que nos torna grandes

“mas o menor no reino de Deus é maior do que ele.” – Lucas 7.28b

Podemos ter tudo aos olhares dos homens. Podemos ser grandes diante dos homens. Mas nada adianta se não estivermos debaixo da vontade de Deus. Nada adianta se não estivermos sob a direção de Deus.

Não adianta adquirirmos mundos e fundos, fazermos coisas que, para muitos, até são impossíveis. Não adianta termos fama e reconhecimento neste mundo, ou sermos aplaudidos por homens, se não estivermos na dimensão do Reino de Deus. Se não nos preocuparmos com a qualidade da nossa vida com Deus, mesmo nós tendo uma vida próspera e nossos feitos serem autenticados por Deus.

A história registra os feitos de grandes homens importantes que desempenharam ou ainda desempenham um papel importante neste mundo, como Alexandre, ‘o Grande’, Herodes, ‘o Grande’, Ciro, Nabucodonosor, João Calvino, Martinho Lutero, João Wesley, Billy Graham, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr., Rui Barbosa, Madre Tereza de Calcutá, e tantos outros que estão espalhados pelas diversas áreas do saber humano no decorrer dos tempos.

Todas essas pessoas defenderam seus ideais, e até marcaram a história naquilo que defendiam. Muitas dessas pessoas chegaram até a morrer ou foram assassinadas por causa dos seus ideais. No entanto, somos todos servos inúteis, que fizemos apenas a nossa obrigação (Lc 17.10), embora sob a permissão do próprio Deus, que é o Senhor Soberano sobre todas as coisas.

Não somos nada mais do que isso, servos inúteis. Ainda mais se os nossos feitos forem comparados com as obras da cruz, diante do grande e infinito amor de Deus, Sua misericórdia, majestade, benignidade e grandeza, sendo que, muitas vezes, nem a parte que nos compete conseguimos fazer por causa das consequências da nossa pequenez, dos nossos pecados, da nossa finitude, enfim, da nossa incompetência humana.

Os especialistas afirmam que, quando se trata de talento humano, nunca houve ninguém maior do que João. Mas não é assim que Deus conta a grandeza dos homens. Quando se trata da dimensão espiritual, a pessoa menor nesta dimensão é maior do que a melhor pessoa na dimensão humana [1].

A posição mantida por alguém que é um cidadão do Reino de Deus é maior do que qualquer posição humana. Seja esta pessoa quem for. Tenha ela o maior e melhor cargo que tiver entre os homens e diante da sua comunidade.

Somente Deus é grande. E se somos filhos de Deus, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo por causa do grande amor que nos concedeu o Pai (Rm 8.17; 1Jo 3.1). E se estamos unidos em Cristo, partilhamos da mesma comunhão que Cristo também partilha com Deus. É a nossa íntima relação com Deus. É isso que nos torna grandes [2].

2. Nossa íntima rejeição a Cristo – Um paradoxo

“Todo o povo que o ouviu e até os publicanos reconheceram a justiça de Deus, tendo sido batizados com o batismo de João; mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, não tendo sido batizados por ele.” – Lucas 7.29,30

Muitos de nós, mesmo sabendo das promessas do Reino – herança que partilhamos com Deus por causa de Cristo –, rejeitamos seguir os desígnios de Deus, sob as mais diversas e absurdas desculpas ou circunstâncias.

Rejeitamos seguir os desígnios de Deus porque temos medo de experimentar o novo, mesmo que essa novidade seja a melhor opção dentre todas as demais. Mesmo que esse novo seja uma boa notícia que vai transformar nossa vida para melhor, e para sempre. Resistimos, porque não queremos ou ainda não tivemos a chance de conhecer a Cristo verdadeiramente.

Rejeitamos, porque estamos demasiadamente arraigados às nossas mesmices deste mundo. Estamos tão acostumados com essas mesmices que pensamos que elas sejam a única verdade ou a única realidade de nossas vidas. Resistimos, por causa do nosso comodismo.

Lógico que nem tudo o que seja novo signifique que seja bom. Mas, no caso dos fariseus e dos homens da Lei, estes rejeitaram o propósito de Deus para suas vidas – que eram as boas-novas da salvação –, e não aderiram ao ministério de João. Contrapuseram-se ao povo, e aos publicanos, que reconheceram a justiça de Deus.

Os fariseus e os homens da Lei preferiram suas tradições e o conforto das suas igrejas e sinagogas. Resistiram a experimentar o impacto de um reavivamento que revolucionou a história, principalmente no trato das nossas almas.

Os fariseus e os homens da Lei não acreditaram na pregação de João e, consequentemente, na mensagem de Cristo como o Messias. Do mesmo modo que aqueles que seguiram a João estavam seguindo o Senhor Jesus, aqueles que rejeitaram a João também estavam rejeitando o propósito de Deus para suas vidas. Assim como nós, hoje, se resistirmos à pregação da Palavra, também estamos rejeitando os propósitos de Deus para nossa vida, posto que a fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus – a pregação.

Outro paradoxo é que se existia alguém que deveria conhecer e aceitar os propósitos de Deus nas pregações de João seriam exatamente os próprios fariseus e aqueles que eram os especialistas na Lei de Deus. Mas eles achavam que a única verdade estava com eles, com aquele jeito legalista, prepotente, radical e hipócrita de praticar a sua religião. E nós, hoje, que dizemos conhecer a Palavra de Deus, como é que reagimos com ela em nós mesmos ou diante dos outros; diante dos incrédulos, dos nossos obstáculos ou de outras crenças?

3. Íntima insatisfação das gerações – A repreensão de Jesus

“A que, pois, comparareis os homens da presente geração, e a que são eles semelhantes? São semelhantes a meninos que, sentados na praça, gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes. Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.” – Lucas 7.31-35

Jesus repreende a postura daqueles fariseus e doutores da Lei que rejeitaram, tanto a pregação de João quanto a Sua própria pregação. Estes dois grupos eram os primeiros que deveriam aceitar o Seu ministério. Mas não, eles decidiram rejeitar.

Os versículos 31 a 35 levam-nos a refletir que certas críticas de certos críticos só nos levam a seguir em frente com os nossos projetos, sem nenhuma arrogância de nossa parte. É que, em vez de elas nos colocarem para baixo, elas produzem o efeito exatamente oposto. É como a crítica de um descrente, de um ateu, de um ímpio, de uma pessoa inoperante recriminando um verdadeiro crente ou as ações de uma pessoa que realmente trabalha. Que crédito têm esses críticos?

Certas críticas, dependendo da fonte, fazem-nos sentir ainda melhor com nós mesmos. Elas só nos incentivam a agir como estamos agindo. Quem é que não conhece alguém que se presta somente a criticar os outros? Geralmente, essas pessoas não gostam de serem criticadas, mas gostam de criticar. Elas só vivem disso, e são um péssimo exemplo. Não retiram a trave de seus próprios olhos, mas veem o cisco no olho dos outros (Mt 7.1-5).

Será que estamos imunes a esse tipo de gente? O próprio João e o Senhor Jesus foram vítimas desse tipo de gente. Mas os críticos que se levantaram contra eles foram julgados por suas próprias críticas. No entanto, não devemos confundir senso crítico – que todos nós devemos ter – com crítico chato que, em vez de olhar para dentro de si mesmo, põe-se de plantão na mira dos outros, somente na dos outros, dos possíveis erros dos outros, e não apresenta nenhuma solução que sirva de edificação para si ou para os outros.

Jesus ilustra a sua repreensão a esse tipo de geração, fazendo uma analogia por meio de uma parábola que compara essas pessoas com crianças que não têm o que fazer na vida. São crianças que ficam na praça jogando, esperando o tempo passar, rejeitando qualquer tipo de brincadeira que alguém possa recomendar.

“A que, pois, comparareis os homens da presente geração, e a que são eles semelhantes? São semelhantes a meninos que, sentados na praça, gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes.” – Lucas 7.31,32

Ainda hoje podemos fazer esse mesmo tipo de diagnóstico e aplicar esse mesmo tipo de comportamento à geração de nossos dias. Veremos que são pessoas instáveis, mal-humoradas, e resistentes, que nunca estão contentes com nada. Simplesmente não há como satisfazê-las [3]. Acham defeitos em tudo, e em todos, e não querem saber de mudanças.

Quantos não estão tendo esse mesmo tipo de comportamento dentro das suas Igrejas? Quantos não estão “fazendo a sua própria festa”, “dançando” do seu próprio jeito, pouco se importando com os estragos, cicatrizes, desgastes e lacunas causados ao Reino, criando o seu próprio sistema religioso; iludindo o povo? João e Jesus foram condenados porque não “dançaram” ao som dos sistemas religiosos da sua época.

“Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” – Lucas 7.33,34

João era um asceta. Levava uma vida austera voltada à efetiva realização da virtude. Jejuava. Não bebia. Viveu a maior parte de sua vida no deserto. Talvez, para muitos, esta seja uma vida chata, triste; cheia de lamentações. Os religiosos da época concluíram que João estava possuído por demônios. Por Sua vez, Jesus levava uma vida do tipo normal. Comia com todo tipo de pessoa, frequentava festas de casamento, e não deixava de beber vinho, comportando-Se aos moldes e limites da ética de cada um desses eventos. Os religiosos da época concluíram que Jesus era um glutão, um bebedor de vinho.

Como comportarmos diante desse tipo de gente? O certo é que não é possível agradar a todos. Muitas pessoas não querem mudar de jogo, não importa como ele seja jogado. Não querem mudar de dança, querem ficar na mesma toada, no mesmo passo, mesmo indo ao cadafalso. Elas só querem ficar à margem, e criticar tudo. Muitas pessoas não querem mudar de vida, e nem ouvir falar de mudanças.

Esse tipo de gente critica apenas por criticar. Apenas por ser do contra, por medo, por insegurança, por chamar para si todas as atenções, todos os holofotes. Enfim, são uns boçais que se encontram em todos os meios e instituições, no meio político, no meio da própria Igreja, e até mesmo em nossas próprias casas, no meio de nossas próprias famílias. Posando-se de boa gente, elas só querem mesmo é tomar espaços, manter posição, porque todos são seus supostos oponentes. E, de posse de tais espaços, não fazem nada mais além daquilo que já tinha sido feito até então, quando não pioram ainda mais a situação.

São sábias essas pessoas?

“Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.” – Lucas 7.35

Segundo Kevan, a sabedoria divina é vindicada por seus próprios filhos – a minoria fiel que acolheu a João e ao Messias –, e não pela maioria descrente que os rejeitou [4]. E quanto a você? De que lado você está? Sua escolha vai determinar quem você é. Se você estiver de pé com Cristo, certamente, você vai ser criticado por aqueles que não estão. Se você tem certeza de que o que você está fazendo é para o bem do Reino, então, vá em frente, e cuidado para que não caia, e seja o modelo de homem que Deus requer de você, hoje, e sempre.

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NOTAS

1 John, Jesus and Judgments on a Generation. In: John Stevenson Bible Study. Disponível em www.johnstevenson.net. Acesso: 15/12/2011
2 Id.
3 Ibd.
4 Kevan, E. F. O Evangelho Segundo S. Lucas – Introdução e comentário. In: O Novo Comentário da Bíblia. v. 2, São Paulo: Vida Nova,1990, p. 1038

quarta-feira, 28 de março de 2012

JUDAS ISCARIOTES - O Apóstolo Apóstata?



Além de ser uma das figuras mais controversas da Bíblia, Judas Iscariotes ainda é lembrado pela maioria das pessoas como um traidor; como o discípulo que traiu Jesus aos romanos por 30 moedas de prata – isso equivalia ao preço de um escravo daquela época. Assim Judas é nomeado pelos apóstolos após o seu tão degenerado gesto, e a expressão “aquele que traiu Jesus” consta nos quatro evangelhos canônicos [1], compondo um dos itens de toda a história do povo cristão.

Além de traidor [2],Judas também é designado com outros adjetivos nada agradáveis [3] por causa de sua conduta, ainda que

Afirmam as interpretações convencionais que Judas Iscariotes seria um dos mais precoces apóstolos, bem como um dos que detinham maior nível cultural, sendo por este motivo escolhido para ser o Tesoureiro do grupo. Alguns se baseiam neste fato para argumentar que ele sempre cultivou a ganância, sendo por isso escolhido para realizar a terrível traição em troca de um valor que correspondia ao preço de um escravo [4].


Este perfil de Judas é tão marcante que, até os dias de hoje, cultiva-se no folclore brasileiro a tradicional malhação de Judas no sábado de aleluia, quando um boneco confeccionado com palha é enforcado em postes, árvores ou em qualquer outro objeto e, depois de derrubado a tiros, é pisoteado, cuspido, ultrajado e estraçalhado ou queimado pelo povo.

Violências à parte, muitas vezes, nesta ocasião, esse boneco representa alguém da própria comunidade, principalmente autoridades políticas ou outras pessoas não gratas àquele meio. É uma espécie de homenagem ao contrário, ou seja, pelos desserviços ou males prestados por parte destes “homenageados”.

No mundo artístico, talvez a descrição mais conhecida de Judas seja o afresco de Giotto di Bondone (1267-1337) intitulado O Beijo de Judas, que se encontra numa capela na cidade de Pádua, Itália. Outra representação conhecida pode ser encontrada em A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, em que o artista mostra Judas um pouco menor e mais escuro do que os outros discípulos, e ele parece estar segurando um saco que poderia conter o dinheiro do suborno [5].

Muito se tem criticado, escrito e falado sobre a personalidade e o caráter de Judas com o intuito de poder entender a sua mente e explicar o que o levou a praticar o tão fatídico ato. No entanto, muitos também defendem que Judas não deve ser responsabilizado por tudo isso que se fala dele. Vários estudiosos têm sugerido que ele era simplesmente o negociador em uma rendição secreta previamente combinada, e que seu retrato, mais que um traidor, é uma distorção histórica [6].

Outros, ainda tentando defendê-lo, dizem que Judas não merece tanta maldição, posto que mesmo ele tendo essa fama de ladrão, nunca havia deixado de assistir aos carentes.Veja o disparate:

Judas Iscariotes – “aquele que O traiu”, é a maldição que carrega sem merecer. Nacionalista, treinado em guerrilhas urbanas, era o mais jovem e mais culto do Colégio de Apóstolos. Articulador político e tesoureiro do grupo, tinha fama de ladrão, mas nunca deixou faltar óbulos para os pobres, órfãos e viúvas [7].


Tais comentaristas esquecem-se de que essas suas posturas só confirmam o caráter deformado de Judas, acentuando ainda mais os seus atos estranhos. Isso não justifica a sua fama, e nos faz lembrar ditos infames como “rouba, mas faz” ou “estupra, mas não mata”, tão bem conhecidos em nosso meio, que, se não fossem tão reais e grotescos, seriam piadas – de mau gosto, é claro.

Além de outros pontos de vista sobre esse mesmo tema destacados no livro A Conspiração da Páscoa, por Hugh J. Schonfield, e também no polêmico filme A Última Tentação de Cristo, essas ideias voltaram à tona novamente com a descoberta de uma cópia antiga de um evangelho de Judas que se considerava perdido, mas que ainda não foi endossado cientificamente. Considerado apócrifo pela Igreja Cristã, dizem que este dito evangelho seria um escrito gnóstico do século II [8]. A maioria dos estudiosos duvida de que esse evangelho de Judas seja uma fonte confiável de informação.

Por sua vez, os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João são os quatro e únicos aceitos pelos cristãos. Por isso é que não se deve esquecer de que as ideias acima expostas não condizem com a Bíblia, que é a regra de fé e prática dos cristãos. Nem mesmo por ela são citadas, defendidas ou relacionadas, o que se leva a crer que não passam de documentos apócrifos ou de meras especulações caracterizadas por pessoas cujos interesses escusos desviam o foco daquilo que histórica e tradicionalmente vem sendo ratificado.

Isso exige de nós uma séria reflexão, pesquisa e um direcionamento com maior acuidade e tratamento com melhor cuidado a respeito daquilo que a Bíblia ensina através dos tempos – se é que temos tal sensibilidade. Assim, dificilmente cairemos em ciladas parecidas com estas: São más as traduções e tendenciosas as referências das narrativas sinóticas ao caráter deste discípulo estigmatizado como “ladrão”, “traidor”, “filho da perdição”. Foi o bode expiatório dos doze e fácil alvo dos recalques do moderno cristianismo [9].

Segundo a Bíblia, desde os mais remotos tempos já se prenunciavam tais fatos sobre o papel de Judas, tendo em vista a missão do Messias [10]. Fatos estes que foram determinados por Deus, com sérias consequências àqueles que os praticassem, diferentemente do que criticam alguns comentaristas que, ao desqualificarem as traduções e as referências das narrativas sinóticas quanto ao caráter de Judas, confundem as pessoas, principalmente num mundo onde hoje em dia tudo é relativo.

Em Mateus 26.14-16, Judas traiu Jesus por ganância com dinheiro de suborno, acertando com os principais sacerdotes o pacto da traição:

Então, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, indo ter com os principais sacerdotes, propôs: Que me queres dar, e eu vo-lo entregarei? E pagaram-lhe trinta moedas de prata. E, desse momento em diante, buscava ele uma boa ocasião para o entregar.


Em Lucas 22.3-6 e João 13.27 diz que Satanás entrou em Judas, tomando o controle dele, conforme esclarece João 13.2. Já em João 13.27a diz: “E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás” (Ver também Lucas 22.3-6). E João 13.2 afirma: “Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus”.

Sobre esse pacto da traição, a Bíblia de Estudo de Genebra (1999, p. 1218), comentando Lucas 22.3-6, afirma: “Satanás tomou o controle de Judas (Jo 13.2); foi Judas quem procurou os principais sacerdotes, e não eles quem procuraram Judas. Os “capitães” da guarda do templo eram, na sua maioria, levitas” [11].

Mesmo assim, alguns estudiosos bíblicos apresentam outra versão. Eles dizem que Judas sonhava com Jesus na liderança de uma revolta contra os romanos, assentando-Se no trono de Davi, e, com ele, o próprio Judas, cuidando das finanças. Frustrado com seu plano mirabolante, confabula a traição, entregando Jesus a Seus inimigos por meio da senha de um beijo [12], que é citado em Mateus 26.14-16,47-50, e que ainda hoje faz sentido entre as pessoas quando alguém, fingindo, usa de falsidade para com outrem, beijando-lhe, ou tratando-o de maneira normal, mas que, na realidade, é somente à base das aparências, da mentira, da hipocrisia e das simulações, segundo suas próprias circunstâncias. É o tão famigerado “beijo de Judas”.

Quanto ao fato do sonho não consumado de Judas, há contestações, e foge da verdade bíblica, mas quanto à questão do beijo, a Bíblia traz tudo nos seus mínimos detalhes, assim como as consequências desta traição [13].

Segundo R. P. Martin, com este beijo, o sinal identificador foi o último toque de ironia em que o papel do traidor se completara, já que se tornara cativo de Satanás, conforme João 13.27-30. Ainda segundo a Bíblia de Estudo de Genebra, a recusa de Judas em responder ao apelo de Jesus abriu o seu coração para o controle de Satanás. “Judas era ainda um agente responsável, mas submetera-se ao domínio do mal”, ressalta, lembrando João 8.34, posto que todo o que comete pecado é escravo do pecado [14].

Os comentaristas também afirmam que Jesus tinha plena consciência da Sua traição – João 13.27b, que Ele continua no controle dos acontecimentos, e que, no desenrolar de todos esses eventos, não fazia mais nenhum esforço para refrear Judas no seu propósito fatal. Jesus falou sobre Sua traição várias vezes, e, apesar de nunca ter mencionado Judas pelo nome, Ele o identificava indiretamente [15].

Judas era um nome comum na antiga Palestina. Os escritores dos evangelhos normalmente acrescentaram o sobrenome Iscariotes para deixar claro sobre quem eles estavam falando. Em João 6.70,71 e 13.2,26 Judas Iscariotes é filho de Simão. Ele era o único seguidor de Jesus não proveniente da Galileia, e, sim, de Quiriote, na região da Judeia.

Os pesquisadores dizem que a origem da palavra Iscariotes é incerta, mas o termo é melhor explicado do hebraico de onde “iscariotes” significa “homem de Queriote”, localizada em Moabe – Jeremias 48.24,41; Amós 2.2. Contudo, existe ainda outra identidade possível, a saber, “Quiriote-Hezrom” – Josué 15.25, que fica a dezenove quilômetros ao sul de Hebrom. Ainda segundo esses mesmos historiadores, essa explicação geográfica de “Iscariotes” é preferível ao ponto de vista que traça essa palavra ao termo aramaicizado sikarios e latino sicarius, que signifca “um assassino” – cf. Atos 21.38 [16].

Essas mesmas fontes afirmam que os sicarii eram um grupo de assassinos rebeldes que estava resistindo à ocupação romana do país. Assim, Judas poderia ter sido originalmente um membro deste grupo. Parece que o prisioneiro libertado Barrabás também poderia ter pertencido a este grupo.

Mas paira no ar, ou melhor, fica atravessada na garganta uma pergunta que não se cala: “Pode Satanás possuir um filho de Deus? E o que dizer de que todos os discípulos estavam limpos, menos Judas?” [17] A resposta deve ser, então, porque Judas não era um cristão verdadeiro. Ou melhor, nunca foi.

Martin (1990, p. 884) afirma que Judas nunca pertenceu a Cristo. Diz ainda que Judas caiu do apostolado, mas nunca teve uma relação genuína com Jesus. Por isso é que ele sempre permaneceu como “o filho da perdição”, que se perdeu por nunca ter sido salvo. “Ele sai do relato dos evangelhos como ‘um homem condenado e perdido’ porque assim preferiu, e Deus o confirmou nessa espantosa escolha” [18].

Será? Há controvérsias açuladas pelos liberais de plantão – como sempre, conforme Mariem (p. 149): “Judas foi um apóstolo que pela sua brilhante inteligência bem poderia ter sido o primaz no Colégio de Apóstolos. Creio ter sido ele perdoado por Jesus, que o chamou de amigo ao receber o beijo da traição.” [19]

No entanto, a maioria dos teólogos acredita que Judas agiu de livre vontade e deve ser punido por isso, contrariando os que acreditam ter sido Judas perdoado por Jesus, posto que Ele até o chamou de amigo ao receber o beijo da traição. Até o escritor medieval Dante Alighieri aparentemente concordou, porque em seu Inferno condenou Judas por toda a eternidade nos dentes de Satanás.

De qualquer modo, a respeito destes fatos tudo já estava predito. E contra fatos não existem argumentos, pois a Bíblia, no Evangelho de Mateus diz: “O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido! Então, Judas, que o traía, perguntou: Acaso, sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste” [20].

Ainda a esse respeito a Bíblia de Estudo de Genebra ressalta que a morte expiatória de Jesus não resultou de um mero artifício das autoridades mal orientadas. Afirma que o evento e suas circunstâncias, inclusive a traição por um amigo – Salmo 41.9; 55.12-14, tinham sido determinados por Deus desde antes de o mundo ser formado, e que, não obstante, os que levaram a efeito a morte de Jesus permanecem responsáveis por suas próprias ações – Atos 1.16,25; 2.23. Com base em Atos 1.25, R. P. Martin diz que o apóstolo se transformou num apóstata [21].

Daí, o seu fim trágico [22]. A Bíblia diz que Judas, “tocado de remorso”, atirou para o santuário as moedas de prata e, retirando-se, foi enforcar-se. Diferentemente do que dizem alguns teólogos – que até questionam o suicídio de Judas, e até afirmam que tenha sido salvo, assim como também alguns gnósticos que acreditam que ele simplesmente se retirou para o deserto com o objetivo de meditar – cf. Mateus 26.24; Lucas 22.3; Atos 1.16-21,25, outros dão conta de que este remorso de Judas não é a mesma coisa que arrependimento.

Os especialistas ensinam que o arrependimento não consiste apenas em mostrar tristeza pelo pecado, porém, em uma decisiva mudança, uma volta do pecado para uma vida de obediência. Não significa autopunição ou remorso. Judas encheu-se de tristeza e de angústia – Mateus 27.3, mas não se arrependeu.

Assim, cumprem-se as Escrituras. Não do jeito que muitos de nós gostaríamos que se cumprissem, mas segundo os planos de um Soberano Deus, que vêm sendo traçados desde antes da fundação do mundo. E Judas também faz parte desse plano, mesmo com um fim tão trágico para nossa ótica. Judas faz parte desse plano, não do nosso jeito, mas segundo a ótica de Deus; como Ele quer que seja.

Por isso é que, nos dizeres de Martin (1990, p. 884), ainda mais aterrorizante que os cruentes detalhes bíblicos sobre Judas é o claro e franco veredito de Atos 1.25, quando os apóstolos se reúnem para escolher quem ficará no lugar de Judas: “Para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou, indo para o seu próprio lugar” (cf. Atos 1.16,17).

Esta passagem bíblica, e tantas outras que tratam do papel de Judas, não deixam dúvidas quanto ao fim daquele que é conhecido como “ladrão”, “traidor” e “filho da perdição” – e tudo aconteceu, assim como tudo deve acontecer, para a glória de Deus!

Que todos esses eventos sirvam-nos de reflexão nestes tempos de tanta incerteza,hipocrisia,ladroeira e traição, inclusive no meio daqueles que se dizem cristãos.Que cada um de nós vigie, cuidando para não cairmos em tentações. E, na medida do possível, diminuirmos esse "judas" que existe dentro de nós, agindo na contramão dos propósitos de Deus.

Que cuidemos cada dia mais, fugindo até daquilo que tem a aparência do mal, não entristecendo o SENHOR nosso Deus na pessoa dAquele que tanto Se humilhou e sofreu para resgatar os verdadeiros filhos de Deus.Creia nEle somente!


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NOTAS

1 Mateus 10.4; Marcos 3.19; Lucas 6.16; João 12.4
2 João 13.2
3 "avarento" - Mateus 26.14,15; "hipócrita", ladrão" - João 12.6; "filho da perdição" - João 17.12b
4 SANTANA, Ana Lúcia. Judas Iscariotes. Disponível em: www.infoescola.com.br Acesso em 25-08-2011
5 Judas Iscariotes. Disponível em www.gospel-mysteries.net Acesso em 25-08-2011
6 idem
7 MARIEM, Nehemias. Jesus à Luz da Nova Era. p. 76
8 Judas Iscariotes. Disponível em www.gospel-mysteries.net Acesso em 25-08-2011
SANTANA, Ana Lúcia. Judas Iscariotes. Disponível em www.infoescola.com.br Acesso em 25-08-2011
9 MARIEM, Nehemias, op. cit., p. 149
10 Jeremias 19.1-13; Mateus 27.1-10; Zacarias 11.12,13; Mateus 26.14-16; cf. Êxodo 21.32
11 Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e sociedade Bíblica do Brasil, 1999. notas. p. 1218
12 MARIEM, Nehemias. op. cit., p. 76
SANTANA, Ana Lúcia, op. cit.
13 Mateus 26.47-56; 27.1-61
14 MARTIN, R. P. Judas Iscariotes. In: O Novo Dicionário da Bíblia. v. 2. J. D. Douglas (org.). São Paulo: Vida Nova, 1962, 1990. p. 884. Reimpressão
Bíblia de Estudo de Genebra, op. cit., p. 1254
15 idem
Judas Iscariotes. Disponível em www.gospel-mysteries.net Acesso em 25-=08-2011
16 idem
O Novo Dicionário da Bíblia, 1962, p. 883
17 João 13.10,11
RAIMUNDO, Francisco César. Judas Iscariotes Perdeu a Salvação? Disponível em www.revistacrista.org Acesso em 25-08-2011
18 MARTIN, R. P. op. cit., p. 884
19 MARIEM, op. cit., p. 149
20 Mateus 26.24,25
21 Bíblia de Estudo de Genebra, 1999, p. 1138
O Novo Dicionário da Bíblia, 1962, p. 884
22 Mateus 27.3-10; Atos 1.16-21,25; cf. Mateus 26.50

sábado, 14 de janeiro de 2012

NA DÚVIDA, PARE; REFLITA! E NÃO CULPE OS OUTROS

“E João, chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntar: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” – Lucas 7.18b,19.
(Leia todo o contexto – Lucas 7.18-23)


Quem dentre nós nunca passou por um momento de dúvida, mesmo no auge da sua vida? Mesmo nos melhores momentos da sua vida, quem nunca passou por um momento de desalento, de desilusão? Quem nunca passou por um momento de desânimo, por um desencanto qualquer?

Esses momentos interferem ou não no nosso amadurecimento pessoal ou espiritual? Na nossa fé? O que devemos aprender em meio a tudo isso? Os filhos de Deus também passam por isso?

Elias foi um dos maiores profetas do Antigo Testamento. Suas orações sacudiam o mundo. Elias teve a ousadia de condenar o estilo de vida pecaminoso dos reis e rainhas do seu tempo.

Elias enfrentou uma multidão de falsos profetas no monte Carmelo, e chamou fogo do céu diante de todos eles.

Tiago 5.16-18 cita Elias como exemplo de eficácia da oração como o justo que orou para parar de chover por três anos, e durante três anos e seis meses não choveu; e que ele orou de novo para chover, e o céu deu a chuva que fez a terra germinar seus frutos.

Mas esta imagem de Elias seria incompleta se não incluíssemos nela o seu período de desilusão e desânimo, que culminou no momento em que ele se escondeu numa caverna solitária, orando para que Deus acabasse com sua vida miserável.

Este texto que nós lemos em Lucas fala de João Batista, mas começa com um quadro semelhante ao de um profeta desanimado. Este contexto tem seu início no verso 17 deste capítulo 7, e vai até o verso 35. Vamos tratar agora apenas dos versos 18 a 23.

Aliás, os especialistas dizem que o estilo de pregação de João parece muito com o de Elias. Um jeito duro de tratar os incrédulos, tamanha é a certeza da sua mensagem.

João foi um predestinado. Conforme Lucas 1.13-17,57-66,76,77, João foi gerado por Deus para ser o precursor do Messias há muito anunciado. Por meio do seu ministério, “muitos se regozijarão”, pois seria chamado “profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor, preparando-Lhe os caminhos, para dar ao Seu povo conhecimento e salvação”.

João teve um ministério proeminente. João teve seu auge ao proclamar que o Reino dos Céus estava próximo. As pessoas se reuniam para ouvi-lo pregar e serem batizadas por ele.

João apresentava Jesus como o Messias, o Cordeiro de Deus que veio para tirar os pecados do mundo, e que ele não seria digno nem de desatar as correias de Suas sandálias.

João também denunciou o estilo de vida pecaminoso do governante local, Herodes Antipas 1º, que, dentre as suas maldades, mandou prender João e, depois, decapitá-lo. No final, este foi o preço do ministério de João.

João agora estava na prisão. O ministério de João estava numa pior. Humanamente falando, a carreira ministerial de João terminou em desastre. Seus seguidores se foram. Apenas uma pequena parcela de seus primeiros discípulos permaneceu com ele. João não mais pregava sobre a vinda do Messias. Seu ministério chegou ao fim.

Enquanto isso, a notícia dos milagres e dos prodígios de Jesus corria por toda a Judeia e por toda a vizinhança. O ministério de Jesus crescia em popularidade. Jesus estava no auge. Mas João permanecia preso; sem saber ao certo o que estava acontecendo do lado de fora da sua cela.

Josefo diz que o cárcere de João ficava numa fortaleza localizada na costa oriental do mar Morto chamada Macaeros ou Maqueronte. Era um lugar solitário e desolado.

Imagine uma pessoa com o estilo de João, que pregava com tanta veemência a vinda de um novo Reino, e que esperava por isso, mas que agora estava preso, sem saber o que realmente estava acontecendo lá fora! E, na sua opinião, esse Reino não acontecia. Será que João estava enganado? O que deu errado com a sua pregação? E que Reino seria esse?

Assim, as perguntas, e também as dúvidas e o desânimo, brotavam daquele lado escuro da prisão, atormentando a mente de João. Dizem que, apesar de ser um profeta, João estava sendo apenas humano demais. Talvez esperasse um reino humano, como tantos da sua época também esperavam. Um reino que tirasse o povo do jugo dos romanos.

Mas Isaías não havia prometido que com a vinda do Messias os cativos seriam libertados? No entanto, João estava preso! Também não dizia que esse Messias traria juízo sobre este mundo incrédulo, que Ele estabeleceria o Seu Reino invencível sobre o Seu povo e que nunca mais haveria sofrimento? Mas João continuava preso!

Essas mesmas dúvidas também tiveram os discípulos de Jesus sobre o Seu reino, pensando que seria um reino físico, político, cuja capital seria Jerusalém. Até mesmo na hora de Jesus subir ao céu eles ainda perguntavam quando seria o tempo do reino vindouro.

Ainda hoje nós também temos esse tipo de problema; de dúvidas; de desânimo. Se Deus é tão bom, tão amoroso, como é que Ele nos permite tanto sofrimento, tanta dor, tantas dúvidas?

Talvez João tenha aprendido com esses momentos de crise. E nós também devemos aprender com ele.

1. Na dúvida, pare; pergunte; reflita

“Esta notícia a respeito dele divulgou-se por toda a Judeia e por toda a circunvizinhança. Todas estas coisas foram referidas a João pelos seus discípulos. E João, chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntar: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? Quando os homens chegaram junto dele, disseram: João Batista enviou-nos para te perguntar: És tu aquele que estava para vir ou esperaremos outro?” – Lucas 7.18-20.

“O Esperado” também pode ser um título para “o Messias”. Todo o ministério de João tinha sido preparado para anunciar que Jesus era esse Messias, o esperado Rei de Israel.

Mas na prisão ele começa a ter suas dúvidas. Estava ele enganado? Tinha entendido mal a palavra profética? João já não estava tão certo daquilo que acreditava? Sua fé estava em dificuldades?

Muitos dizem que não. Mas suas perguntas eram inesperadas, pois vinham de quem foi preparado como testemunha de Jesus (Lucas 3.16,17).

João não entendia por que Jesus não punia os pecadores, e realizava constantemente obras de misericórdia. Viria outro para cumprir as ameaças de julgamento que ele tanto enfatizava em suas pregações?

Daí, de pronto, João envia alguns dos seus discípulos para perguntarem a Jesus se Ele era aquele que estava para vir ou teriam que esperar outro.

Convém lembrar que o próprio João também foi questionado por uma comitiva de sacerdotes e levitas enviada pelos judeus para perguntarem quem ele era, logo no início do seu ministério. E, de pronto, ele responde: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.” (João 1.23).

Você também tem dúvidas? Você tem medo de expô-las, pensando que vai assustar os outros ou ser rejeitado por eles? Não esqueça: Na dúvida, pare. Pergunte, informe-se, e refaça uma nova rota. Não empurre com a barriga, porque, depois, o desastre será bem maior, e pior. João apressou-se logo em esclarecer as suas dúvidas. Quem sabe, esse não seja o seu melhor momento para mudar a sua vida? Para melhor, é lógico!

2. Jesus é fiel. Ele continua o mesmo, e nos aceita, mesmo com as nossas dúvidas

“Naquela mesma hora, curou Jesus muitos de moléstias, e de flagelos, e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos. Então, Jesus lhes respondeu: Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho.” – Lucas 7.21,22.

Veja como Jesus respondeu às dúvidas de João. Ele poderia dizer: Sim, eu sou o Messias que você tanto anunciou, razão esta para a qual você nasceu, para proclamar a minha vinda. O que está acontecendo com você? Por que duvida? Leia a Bíblia, ô, incrédulo!

Mas não. Jesus continuou operando as Suas obras. Diante dos discípulos de João, Jesus continuou cumprindo a Sua parte. Jesus respondeu a João com ações sobre Ele já anunciadas, e em que o próprio João também se baseava nas suas pregações para falar do Messias, “o Esperado”.
Jesus utilizou-Se da mesma linguagem profética utilizada pelos antigos profetas que prediziam a Sua vinda. Jesus respondeu a João com a linguagem de profeta que, certamente, João entendia, já que ele mesmo também era um profeta.

E, com todos os termos utilizados na época pelos profetas, Jesus deu provas da confirmação daquelas profecias, ali, com Suas obras, prodígios e milagres.

E mandou que os discípulos de João testificassem do que viram: “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho.” (Isaías 35.3-6a; 61.1).

Muitas vezes nós só acreditamos quando nos apresentam provas. Jesus não se importou com as circunstâncias de João. Ele poderia enviar anjos para abrirem as celas, e libertarem a João, como em outras ocasiões fizera com Seus discípulos, e ver tudo o que Ele estava fazendo. Mas não o fez. Apenas deu provas de Quem Ele era por meio das Suas obras. Jesus não deixou pairar nenhuma dúvida sobre quem Ele era. Ele era Aquele que estava sendo esperado, sim.

Mesmo com todas as dúvidas, inquietações, desânimo e desalento de João, Jesus continuava sendo o mesmo, assim como também continua sendo hoje, e será para sempre, operando em nós as Suas maravilhas; os Seus prodígios.

Ele não muda por causa das nossas dúvidas. Das nossas circunstâncias, inconstâncias ou fraquezas. Jesus continua aceitando-nos, mesmo com as nossas dúvidas, porque somente as Suas obras é que podem dirimir as nossas dúvidas, sem retóricas.

E também porque Ele é fiel. Em 2Timóteo 2.13 diz que “Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-Se a Si mesmo.”

3. Felizes os que realmente creem! E não culpam os outros por seus fracassos

“E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço.” – Lucas 7.23.

Obviamente que todos nós somos passíveis de dúvidas, erros e desânimos, principalmente diante de um mundo tão conturbado, liberal e relativista quanto esta nossa época.

Lógico que somos fracos. Às vezes, podemos cair. Mas devemos cuidar-nos, e seguir em frente, não importa o que esteja tentando impedir-nos, e não culpar os outros pelos nossos erros e fracassos.

O SENHOR mandou que Josué seguisse em frente. Ordenou a Elias que saísse da caverna, pois tinha mais o que fazer para ele. E Jesus, como o Filho enviado pelo Pai para a nossa salvação, mostrou a João as ações das Suas obras porque Jesus também devia seguir em frente, praticando-as. Era a Sua missão.

Isso só nos mostra que temos que seguir em frente porque, se temos uma missão a cumprir - e se ela foi ordenada por Deus -, Jesus, como nosso Salvador, está conosco, provando-nos e aprovando-nos. Abrindo as portas.

Ele jamais vai impedir-nos de caminhar. Ele jamais vai servir-nos de tropeço. São as provas do Seu amor para conosco. São as provas para as quais Ele foi enviado. E Suas provas são-nos reveladas.

Suas obras são as provas da razão da nossa fé. E estas provas por meio de Seus milagres são as credenciais de que Jesus mostra quem Ele é, e que já vêm sendo prometidas desde o Antigo Testamento, sobre as quais Isaías já falava àqueles que também estavam desanimados, e começando a duvidar.

Querem prova maior do que as obras da cruz? Creia sem duvidar, e seja realmente bem-aventurado!

As obras de Jesus são o antídoto contra todas as nossas dúvidas, desânimo, frustrações, crises e medo. Não importam quais sejam as suas circunstâncias ou dificuldades, olhe para as obras de Jesus. Olhe para Jesus, e veja o que Ele já fez e pode muito mais fazer por você. Suas obras mostram quem Ele realmente é. Coloque suas dúvidas nas mãos dEle. Ele não nos desampara.

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Fontes: BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, 1999, notas. p. 1192
Studies in the Gospel of Luke. Disponível em www.johnstevenson.net. Acesso:11/01/12